Nesse texto, comento sobre a produção e a execução da proposição de arte Qual a forma do Guahyba?, realizada em novembro de 2024 para a quarta edição do BEIRADA. Pretendo explorar como a proposição se modificou ao longo de sua fase de produção e em como suas limitações logísticas serviram para refinar a ideia original até a forma final como foi apresentada. Mas, antes de entrar nos detalhes da proposição, vale explicar o que, de fato, é o BEIRADA.
O BEIRADA é um evento de happenings, criado em 2023, por mim e pela artista visual Marcela Futuro, que já conta com quatro edições. Para entender melhor o que acontece nele, é importante falar de cada palavra de seu subtítulo acontecimento experimental de proposições simultâneas:
- Acontecimento: o BEIRADA é um evento, que acontece em um espaço pré-definido, com uma hora marcada para iniciar e terminar.
- Experimental: o BEIRADA acontece em espaços incomuns para eventos de arte, ou, quando acontece dentro de um espaço onde se espera ver arte, subverte-o de alguma forma. É experimental, também, num sentido de que o seus desdobramentos dependem quase que totalmente do público;
- Proposições: o que efetivamente acontece no BEIRADA! São pensadas por mim e por Marcela, junto de artistas convidados para cada edição. As proposições sempre incitam algum tipo de participação do público e sempre giram em torno de uma temática em comum (relacionada ao epaço onde acontecem);
- Simultâneas: as proposições acontecem simultaneamente. Não se espera uma acabar para que outra aconteça, tudo acontece junto. Nesse processo, uma proposição pode sobrepor a outra e algo novo pode surgir a partir do que o público faz delas.
Contextualizando a proposição que dá título ao post, acredito que as coisas fiquem mais claras. A quarta edição do evento aconteceu no dia 24 de novembro de 2024, um domingo, das 16 às 20 horas, na Orla do Guaíba1, em Porto Alegre (o acontecimento). A temática do evento foi o dia municipal do Guaíba e a proposta foi que ele ocorresse em meio ao tradicional costume de fim de tarde da cidade, que é ir até a Orla para ver o sol se pôr (o caráter experimental). Essa edição foi composta de quatro proposições e contou com a colaboração dos artistas Hélio Fervenza e Maria Ivone dos Santos (as proposições simultâneas).
Enfim, chego no ponto principal do texto. Qual a forma do Guahyba?2 foi uma dessas proposições que compôs o evento. O trabalho consistiu, basicamente, em posicionar uma lona azul, de 4 x 4 metros na orla do Guaíba, com a frase que dá nome ao trabalho escrita em letras garrafais. Em cima dela, 500 gizes brancos ficaram disponíveis para responder a pergunta riscando a lona.
Essa foi a forma final de apresentação da ideia original do trabalho ao público, mas me interessa muito o processo de ajustes e refinamentos pelo qual ela teve que passar para acontecer. Entendo que, a maior parte dos trabalhos de arte que crio, surgem primariamente de ideias. Essas ideias nascem habitando um mundo sem atrito, onde tudo é permitido acontecer. Criam uma versão imaginária do trabalho que, quando começa a se materializar no mundo, se defronta com as leis da física, com as possibilidades logísticas e com convenções sociais. Nesse processo de materialização, com as limitações que o mundo real impõe, é que o trabalho toma forma.
Com Qual a forma do Guahyba? não foi diferente. De início, eu pretendia que a proposição acontecesse do seguinte modo: uma caixa de areia de 3 x 3 metros seria posicionada na Orla junto de algumas pás e enxadas, próxima dela estaria uma placa com a pergunta que intitula a proposta. O público poderia brincar nessa caixa e, moldando a areia, criar a forma tridimensional que eles acreditavam que o rio teria. Contudo, essa configuração inicial exemplifica bem uma ideia que quando se defronta com o mundo, se mostra insustentável. A quantidade de areia necessária para encher essa caixa hipotética seria enorme e a logística de transportar ela até o seu local final e depois removê-la seria de uma produção bastante complexa, provavelmente necessitando de autorizações específicas somente para a montagem daquela estrutura. Seria artisticamente interessante, mas logisticamente caótica.
Notando essas complexidades, voltei a pensar sobre o cerne daquela proposta inicial: que o que quer que fosse realizado num espaço determinado, pudesse ser compreendido como uma resposta à pergunta Qual a forma do Guahyba?. Tendo essa operação base em mente, a solução que encontrei foi de planificar o trabalho, indo de uma escultura para um desenho colaborativo, chegando na ideia da lona com os gizes.
Fui de uma ideia onde o principal artifício de participação do público era trabalhar com relevos, para outra onde o principal artifício se tornou a linha. Isso certamente ditou a maneira com que as pessoas interagiram com a proposta. Houveram pessoas que tentaram realmente traçar uma forma para o Guaíba, outras que riscaram a esmo, muitas assinaram seus nomes na lona ou escreveram palavras diversas.
Em dado momento, um menino plantou bananeira no meio da lona e penso que essa passa a ser uma possível resposta à pergunta sobre forma do Guaíba. E, daqui, posso extrapolar para que no momento em que alguém registrava ali sua resposta, a pergunta já era respondida: a forma do Guaíba passava a ser, por alguns instantes, o movimento do braço da pessoa agachada que traça seu próprio nome. O registro que permanecia era bidimensional, mas o ato de fazê-lo, inevitavelmente passava pela tridimensionalidade do gesto do corpo, acenando aos relevos da ideia original. Meio transcendental, mas só se quiser. Se não quiser, é bem prático e direto, quase simples demais. A pergunta poderia ser qualquer outra e os nossos olhos encontrariam respostas para ela nos desenhos e nos movimentos feitos.
-
A Orla do Guaíba é um parque da cidade de Porto Alegre — RS, que costeia um trecho do Guaíba (um corpo hídrico que pode ser classificado tanto como rio quanto como lago). A Orla é um tradicional ponto de lazer, com um grande fluxo durante os finais de semana. A 4ª edição do BEIRADA aconteceu no trecho da Orla ao lado da Usina do Gasômetro, outro ponto turístico importante da cidade. ↩︎
-
A grafia escolhida para o Guaíba em todas as suas menções no evento foi a antiga Guahyba, remetendo à sua origem na língua Tupi-Guarani, podendo ser traduzido como “encontro das águas”. (fonte) ↩︎